Pentecostes: A Festa do Espírito

santo espíritoEncerrando o tempo pascal, a Igreja celebra neste domingo, o Dia de Pentecostes. Encerramos o tempo litúrgico da Páscoa, mas a celebração da Páscoa continua sempre, porque é preciso comunicar e celebrar a ressurreição de Jesus, um feito inédito na História da humanidade. E é com Espírito Santo que a Igreja iniciou essa festa dominical que celebramos todos as semanas, porque antes de Sua vinda, os apóstolos viviam escondidos no cenáculo.

Foi a partir da vinda do Espírito Santo que eles saíram de si, começaram a falar em várias línguas ao redor do mundo todo para que todos soubessem da salvação que só Jesus pode nos dar. É o Espírito Santo que falou por meio de Jesus as coisas do Pai. É o mesmo Espírito Santo que fala por mim e por você sobre as coisas de Deus. É o mesmo Espírito Santo que muda as espécies do pão e do vinho no Corpo e Sangue de Jesus para que Ele possa permanecer, vivo e ressuscitado, habitando e agindo entre nós.

Todos nós deveríamos, durante o nosso dia, invocar a presença do Espírito Santo para nos iluminar nas coisas que devemos fazer; para nos afastar daquilo que nos distancia de Deus e para nos proteger de tudo aquilo que ameaça nossa vida. Não devemos nunca nos esquecer que o Espírito Santo é nosso Deus: Ele é a terceira pessoa da Santíssima Trindade e, juntamente com o Pai e com Jesus, é digno de toda honra e todo louvor.

Às vezes, nos esquecemos do Espírito Santo, mas é Ele que nos inspira nossas orações, nossos bons sentimentos, as palavras de carinho que dedicamos a alguém, a luz que nos vem quando lemos a Sagrada Escritura. Eu, enquanto escrevo esse texto, estou sendo iluminado pelo Espírito Santo, para que as palavras aqui descritas possam tocar os corações e ajudar as pessoas a se aproximarem de Jesus. Você, enquanto lê esse texto, também está sendo iluminado (a) pelo Espírito Santo para que seu entendimento acolha essas palavras com sabedoria e Deus possa falar no seu coração.

Não somos especiais nem melhores do que os outros porque somos todos criaturas humanas. No entanto, somos especiais para Deus, porque Ele nos concede dons que possam ser colocados a serviço do bem comum, como diz a Segunda Leitura de hoje (1Cor 12, 3b-7.12-13). Quanto mais colocamos esses dons a serviço, mais nossos dons crescem e se multiplicam, como narra a parábola dos talentos (Mt 25, 14-30). É pelo Espírito Santo que acontece tudo isso.

Neste dia festivo de Pentecostes, que possamos reacender em nosso coração a chama da fé em Jesus. Que possamos, como os discípulos fizeram (At 2, 1-11), sair do cenáculo fechado de nosso interior e abrir as portas para propagar o amor de Jesus ao mundo tão carente desse amor. Vejo, com tristeza, as pessoas cada vez mais olhando para si e para seus “direitos”, seguindo filosofias baratas de felicidade pessoal, buscando a satisfação para si mesmas e se fechando ao irmão do lado.

Peçamos ao Espírito Santo que entre “como um forte vendaval” em nosso ser fechado e sopre pra fora tudo aquilo que nos desune. Venha sobre nós o Espírito prometido e renove a face da Terra (Sl 103), mas primeiramente possa renovar a nossa face, tornando-nos mais humanos, mais sorridentes, mais cheios de alegria para contagiar aqueles que convivem conosco. Peça você também o Espírito Santo neste dia. Ele já veio sobre você no dia do seu batismo e só está esperando uma chance para incendiar o seu coração e a sua vida com o fogo purificador do amor de Deus.

(Eduardo Marchiori)

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O Senhor se elevou

Ascension“Por entre aclamações, Deus se elevou; o Senhor subiu ao toque da trombeta” (Sl 46) O Salmo fala da glória de Deus, mas Jesus não teve grandes aclamações quando voltou aos Céus. A festa da Ascensão é celebrada com júbilo pela Igreja no mundo inteiro, mas uma leitura no Evangelho até narra uma subida bem discreta de Jesus. Aliás, como sempre foi sua vida: sem trombetas nem grandes espetáculos. Jesus não veio para dar show: Ele veio para nos levar ao Céu.

O motivo de festejarmos a Ascensão é exatamente esse: é por sabermos que, em Sua grandeza, Deus quis se fazer pequeno e se encarnou para tornar-se um de nós. Passou, neste mundo, tudo aquilo que nós passamos, menos o pecado. Sofreu, chorou, sentiu fome, teve amigos, foi a casamentos, rezou no Templo… teve pai e Mãe… fez peraltice de criança (se perdeu dos pais), teve momentos de muita alegria e também morreu.

Mas – aí é que está nosso grande motivo de alegria – também ressuscitou e depois se elevou aos Céus. Com aquele corpo humano que era nosso. Ressuscitou a nossa natureza e levou-a consigo para junto de Deus. É por isso que cremos que nós também vamos ressuscitar e sermos levados ao Céu – porque aquilo aconteceu com Jesus e ele era igual a nós em sua natureza humana. Ele quis assim para elevar o ser humano a uma categoria maior do que apenas uma “criatura” de Deus. Agora somos também filhos, assim como Ele é Filho.

A festa de hoje tem um sentido todo especial por tudo isso e também porque é traz em si a promessa de que, embora Jesus não esteja mais em forma física no meio de nós, Ele não nos abandonou à nossa própria sorte, mas enviou o Seu próprio Espirito para nos ajudar a compreender e a abrir nosso entendimento às coisas divinas. Semana que vem estaremos comemorando o dia de Pentecostes, mais um domingo festivo que encerra o tempo pascal e nos coloca de novo na realidade da Igreja. Repletos do Espírito Santo, agora temos a missão de levar esse Jesus aos outros.

10406573_1435298330066113_7704021686461096558_nNeste mesmo domingo, também celebramos o Dia das Mães. Aquelas que “emprestam” seu corpo para que Deus faça nelas o milagre da vida. E, depois disso, doam sua vida inteira para que aquele pequeno ser possa crescer com saúde e felicidade. Se hoje temos mulheres querendo ser “donas” de seus corpos é porque não compreenderam a graça da maternidade. Enxergam o filho como um fardo a se carregar, não como um presente divino. Egoísmo não rima com Mãe, porque ser mãe é sair de si e dedicar-se total e irrestritamente à criaturinha frágil que sai de dentro dela.

Quem quer ser dona de si é melhor mesmo que não seja mãe. Seu filho não mereceria tal sentimento. E – bom deixar claro – isso vale também para os pais, que são muito mais do que meros “atores sexuais” e usuários do corpo feminino. Ser pai também é doação – mas a festa de hoje não é deles, então, vamos deixar esse comentário para daqui alguns meses. Hoje, o dia é das mães. Aquelas que, com sacrifício, doação e, sobretudo, amor, se empenham ao máximo para criar suas crianças. Muitas vezes, criam sozinhas, porque são abandonadas pelos maridos que não compreenderam sua missão de pai. São verdadeiras heroínas, mulheres fortes, batalhadoras e dignas de toda homenagem que possa haver no mundo.

capinha001Por fim, hoje também é um dia especial para nossa revista, porque comemoramos 22 anos de vida. Foi no dia 8 de maio de 1994 que distribuímos a primeira edição do “Jornal da Crisma”, que virou “Construtores do Reino” a partir da edição 3 e se tornou revista oficialmente em 2008, embora já tivesse tais características desde 1999. É uma história muito bonita e cheia de percalços, mas sempre com a graça de Deus nos acompanhando. Um passo de cada vez, fomos aumentando páginas, ganhando maturidade, crescendo como uma criança.

Hoje é um dia de muitas graças. Dia de agradecer pelo carinho que tiveram como nossa revista ao longo desses 22 anos. Obrigado pela aceitação, pelas críticas, pelo incentivo… Também é dia de agradecer pela dedicação de nossas mães. Que não seja apenas hoje, mas todos os dias. Porém, hoje é um dia para lembrar delas de modo especial e dar aquele abraço de gratidão. E, sobretudo, também é dia de agradecer a Deus pelo infinito amor que tem por nós. Um Deus tão apaixonado pela humanidade que não quis se desfazer dela e levou-a junto com Ele para o Céu.

(Eduardo Marchiori)

Promessa de salvação

Jesus e os doze discípulosA Boa Notícia de hoje é que todos estamos salvos em Cristo Jesus e, só por isso, nossa vida deve ser de extrema alegria. O Evangelho (Jo 14, 23-29) continua a narrativa da semana passada, onde Jesus se despede dos discípulos, mas não sem deixar-lhes uma palavra de esperança. “Vou para o Pai, mas voltarei a vós” (v. 28). Jesus parte, em sua forma física, mas permanece conosco em formas diferentes: na Palavra que lemos e ouvimos, no alimento do altar, sob as espécies do Pão e Vinho e também nas pessoas ao nosso redor, pois como Ele mesmo afirmou, “cada vez que fizerdes isso a um dos meus irmãos pequeninos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25, 40).

Jesus não nos abandona à nossa própria sorte. Aliás, Deus nunca nos abandonou à nossa própria sorte, mesmo quando pecamos. Adão, lá nos primórdios, desobedeceu a Deus e, naquele momento, Deus prometeu o Salvador. Não abandonou o homem em sua fraqueza, mas se adiantou em perdoar e prometer um retorno ao Paraíso. E a liturgia de hoje mostra bem esse cumprimento da Palavra de Jesus quando, na Primeira Leitura (At 15,1-2.22-29), apresenta os apóstolos com um dilema moral.

Por conta das leis judaicas, havia uma discussão sobre as condições necessárias para a Salvação. Nos dias de hoje, quando entramos num emprego, por exemplo, temos que apresentar o currículo com nossas habilidades. Depois, apresentamos documentos, RG, CPF, comprovante de residência, em alguns casos, até atestado de antecedentes, para provar que somos cidadãos de bem. No tempo de Jesus, a condição para “entrar” na religião era a circuncisão. Quem não fosse circuncidado, não pertencia ao grupo.

Por que a circuncisão era tão importante? Na mentalidade dos judeus, ao cortar o prepúcio – a pele que recobre o órgão genital masculino – o que restava era um “anel”. Ou seja: o homem tirava de si mesmo, de sua própria pele, um anel, simbolizando a aliança com Deus. Hoje, as cirurgias modernas tornam isso bem mais simples, mas naquela época, era algo bem sacrificante, principalmente para homens adultos. E, quando a Palavra de Jesus atingiu outras regiões, muitos pagãos começaram a querer seguir aquela Palavra, mas era exigido que fossem circuncidados.

Criou-se, então, um dilema: essas pessoas que não aceitassem a circuncisão poderiam ser salvas? Os apóstolos se reuniram, discutiram e decidiram que sim. A condição para ser salvo era seguir a Palavra de Jesus. Ter amor pelo próximo. Um pedaço de pele cortada não garantia a aliança com Deus, mas sim o que elas traziam no coração. Diz a Palavra: “Porque decidimos, o Espírito Santo e nós, não vos impor nenhum fardo, além destas coisas indispensáveis: abster-se de carnes sacrificadas aos ídolos, do sangue, das carnes de animais sufocados e das uniões ilegítimas. Vós fareis bem se evitardes essas coisas.” (v. 28-29).

A salvação foi aberta a quem quiser. Claro que algumas normas são, sim, requeridas. Hoje em dia, uma criança que entra na catequese precisa ter certa idade, tem que apresentar uma documentação, frequentar o curso de formação para só depois, participar da Eucaristia. Se não seguir essas normas, não pode participar. São questões básicas: não é que a Igreja quer proibir as pessoas de algo, é apenas para dar uma formação para que tenham um entendimento daquilo e possam ter mais consciência e dignidade ao fazê-lo, para que não se torne um mero ritual, mas haja coração e amor. O que não se pode é tornar tais coisas um fardo pesado e impossível de carregar.

A Segunda Leitura (Ap 21,10-14.22-23) complementa esse pensamento, mostrando que a chave do Reino Eterno está ao nosso alcance. Quando João narra, em seu Apocalipse que os as portas da Jerusalém celeste possui gravados os nomes das doze tribos de Israel e os alicerces das muralhas tinham o nome dos doze apóstolos, é um sinal de que ali estão todos os povos do Antigo Testamento (Doze Tribos) e do Novo Testamento (Doze Apóstolos), do qual nós também fazemos parte. Nossos nomes estão escritos no Céu, no lugar onde não existe o sol, “pois a glória de Deus é a sua luz e a sua lâmpada é o Cordeiro” (Ap 21, 23).

E daí vem Jesus dizendo que vai partir, mas mandará o Espírito Santo para nos lembrar de tudo aquilo que Ele nos ensinou. E completa: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e o meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele a nossa morada” (Jo, v.14, 23). É tudo o que precisamos. A liturgia de hoje aquece o coração e nos dá a certeza de que temos um Deus que olha por nós e nos acompanha sempre na caminhada. Ele quer salvar e viver ao nosso lado para sempre. As portas já estão abertas: para entrar, só precisamos amar e guardar a Palavra Dele.

(Eduardo Marchiori)

Lei do amor

wyllys-bolsonaroNo último domingo, durante a votação do Impeachment da presidente, fomos “brindados” (dentre outras coisas, que só nosso coro parlamentar pode nos conceder) com uma cena digna dos  mais refinados seres humanos: o deputado Jean Wyllys cospe na cara do também deputado Jair Bolsonaro. Ontem, o ator José de Abreu, um dos maiores nomes da teledramaturgia, homem de bons princípios, perseguido pela ditadura militar por defender a liberdade de expressão, perde as estribeiras e, durante uma discussão num restaurante, cospe na cara de um casal.

Estes são apenas – ênfase no “apenas” – dois exemplos do quanto nossos dias precisam da cultura do amor. A liturgia de hoje entra em clima de despedida, já prenunciando a ascensão de Jesus que será celebrada daqui a dois domingos (muito embora o texto remeta à Última Ceia), com Jesus nos deixando, não um pedido, mas um mandamento: “Amai-vos uns aos outros assim como eu vos amei!” (Jo 13, 34). E, se tomarmos ao pé da letra essas palavras do Mestre e compararmos com nossa vida, veremos o quão longe estamos de cumprir esse preceito!

Nunca, jamais conseguiremos amar da mesma forma que Jesus nos ama. No entanto, Ele pediu que o fizéssemos e cabe a nós, no mínimo, tentarmos nos aproximar desse amor tão grande. Mas parece que, a cada dia que passa, fazemos o contrário. Ao invés de amar, odiamos. Ao invés de respeitar, impomos nossa opinião. Ao invés de compreender, julgamos. Ao invés de perdoar, cortamos a pessoa de nossas vidas – e hoje, com as redes sociais, isso é tão fácil… basta um botão de “Excluir” ou “Bloquear” e pronto! Eliminamos o estorvo!

Não é isso que Jesus deseja de nós. Certamente, não é! Nossa vida deveria ser um espelho do que foi a vida de Jesus. Por mais impossível que nos pareça ser iguais a Ele na perfeição de Sua divindade, não nos é impossível imitá-lo, assim como uma criança nunca poderá ser igual ao seu pai na sua fragilidade e infância, mas tenta imitá-lo em suas virtudes. Somos filhos de Deus e, como tal, devemos imitar nosso Pai.

Hoje se prega a cultura do egocentrismo. Os aparelhos de celular e câmeras fotográficas são adaptadas para que possamos tiramos fotos de nós mesmos e não precisemos mais pedir ajuda a outro. Antigamente (e não tão antigamente assim… coisa de uns dez anos atrás, no máximo!), quando estávamos perdidos, tínhamos que pedir informação a alguém. Hoje, temos GPS no carro e no celular. Humilhação, jamais! Eu me basto! Eu me viro! O outro que viva sua vida!

Obviamente, a tecnologia chegou para nos ajudar e facilitar nossa vida, mas sempre me questiono até que ponto ela realmente está ajudando ou se está nos tornando homens-caracol, fechados em nosso casulo, olhando pro nosso próprio umbigo. Hoje, temos a possibilidade de conversar em tempo real com pessoas do outro lado do mundo… mas não temos a capacidade de conversar, na mesa, com nossos familiares que estão ao nosso lado… E o amor, onde entra?

Compartilhamos mensagens otimistas e cheias de bons valores pelo Facebook, mas que palavras nós temos para dar àquela pessoa que está sofrendo? Ou esperamos que ela leia nossa timeline? Afinal, tudo de bonito que queremos dizer, está lá… Ainda esta semana, brincava com alguns amigos dizendo que encontrei, nas estatísticas deste blog, uma busca nos seguintes termos: “mensagem de agradecimento para catequista de primeira eucaristia”. Comentei que, se eu recebesse uma mensagem copiada de mim mesmo (se a pessoa veio parar no meu blog, é bem possível que copie uma mensagem que eu escrevi) ia impedir a criança de fazer a Primeira Comunhão.

Claro que foi uma brincadeira, mas veja em que pé chegamos: somos incapazes de expressar até mesmo as coisas boas – a gratidão, o carinho, o respeito pelo trabalho do catequista (ou professor, ou pai, ou mão, ou quem quer que seja) – que estão em nossos corações e preferimos pegar uma mensagem pronta. É um “amor enlatado”: é só abrir e consumir. O nosso coração é capaz de coisas que nos surpreendem. Não é preciso palavras bonitas. Aliás, catequista nenhum (ou professor, ou pai, ou mãe…) precisa de mensagens de agradecimento. O que eles querem é apenas o amor.

A mensagem, o presente, são consequências desse amor, que não cabe no peito e quer virar algo material. Mas, se não tiver o material, um abraço serve. Fala mais do que o presente. As cuspidas que viraram moda são expressões do ódio e do desprezo. Não cabem no coração de que diz que ama e segue Jesus. Temos que dar um passo atrás na vida para rever nossos valores. Dar um passo atrás não é retrocesso: é corrigir o caminho para seguir em frente.

“Nisso todos saberão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros.” Não aquele amor meloso e cheio de coraçõezinhos. Um amor que se entrega por quem quer que seja: os que gostam de nós e também os que não gostam. Amor não é viver aos beijos e abraços. Amor é dar bronca quando necessário para corrigir. Nossos deputados erraram não quando discutiram suas ideias diferentes, mas quando criaram uma muralha entre si, muralha essa que não foi capaz de conter uma cuspida. O ator não errou quando tentou defender a si de provocações infundadas. Ele errou quando sua raiva tomar conta e extravasar.

A medida do amor é amar sem medida, já dizia Santo Agostinho. É por esse amor que serão criados novo céu e nova terra, como narra a Segunda Leitura de hoje (Ap 21, 1-5a). O Senhor irá voltar e fazer novas todas as coisas. E, com tudo renovado, não haverá espaço para sentimentos mesquinhos: só quem ama terá lugar nesse reino. façamos nós também uma reforma nos nossos sentimentos. É difícil, sim, mas não é impossível. E, se for impossível para você, saiba que pode contar com aquele cuja especialidade é ultrapassar todos os limites. Peça a Ele a graça de amar como Jesus nos ama.

(Eduardo Marchiori)

Pastor e cordeiro

bom pastorO 4º. Domingo da Páscoa é conhecido, liturgicamente, como o “domingo do Bom Pastor”. É porque o Evangelho deste dia (Jo 10, 27-30) destaca essa personalidade de Jesus, que se assume como o bom pastor, aquele que dá a vida pelas suas ovelhas. Mas é interessante notar que Jesus não é apenas pastor, ele também é ovelha. Ele é o “cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”, como disse João Batista (Jo 1, 29) e como recitamos por três vezes na Santa Missa.

Jesus é o novo cordeiro que foi imolado em reparação dos nossos pecados. Era um costume dos antigos oferecer um sacrifício a Deus, geralmente cordeiros e bodes, simbolizando os pecados de todas as pessoas, para “aplacar a ira” do Criador. No tempo de Moisés, um cordeiro foi imolado e seu sangue passado nas portas dos hebreus para salvá-los da fúria do anjo vingador que passou pelo Egito. Jesus retoma esse costume e oferece-se a si mesmo como cordeiro manso.

O sangue de Jesus-Cordeiro, agora não mais nas portas, mas na nossa fronte, pelo nosso batismo, é quem nos protege e nos salva. A figura do cordeiro e dos pastores era muito forte para os judeus porque eles viviam aquela realidade – era um povo rural, que tinha seus animais e muitas pessoas do povo exerciam a função de pastor – aquele que leva as ovelhas para o pasto. Por isso, Jesus toma para si essa imagem. Além de ser o Cordeiro de Deus, ele também é o Bom Pastor, cujas ovelhas obedecem e seguem.

Hoje, temos em nossas casas cachorros e gatos e também sabemos que eles conhecem até os passos de seus donos. Basta se aproximar e já se alegram e abanam o rabo. Se ouvem um estranho, latem em alerta. As ovelhas também são assim: não seguiam outro som que não fosse do seu pastor. Ele tinha seu jeito particular de assobiar ou de chamar que as ovelhas identificavam prontamente. E sabiam que seu pastor as levaria para um lugar bom, de descanso, águas frescas e pastagem farta.

Imaginar Jesus como pastor é ter essa certeza, de estarmos sendo conduzidos para boas pastagens, ou seja, para um caminho de felicidade e sem sofrimento. E Jesus promete: “Ninguém vai arrancá-las da minha mão” (Jo 10, 29). Ele é o pastor que se dedica, quer o melhor e, acima de tudo, protege. Não precisamos temer, pois temos a certeza de que contamos com essa proteção carinhosa e permanente.

Os apóstolos tiveram essa certeza, como nos mostra a Primeira Leitura (At 13,14.43-52), quando Paulo e Barnabé precisam enfrentar os judeus. Com coragem, eles assumem que os judeus foram o povo escolhido, mas como não aceitaram a Palavra de Deus, ela agora seria levada aos pagãos – que eles tinham como excluídos. Sem temer a reação deles, mas com a coragem de saber que contavam com a proteção de Jesus.

A Segunda Leitura (Ap 7,9.14b-17) mostra o tamanho do “rebanho”: “uma multidão de todas as nações, tribos, povos e línguas, e que ninguém podia contar” (v. 5) e que “alvejaram suas vestes no sangue do cordeiro” (v. 14). Estes somos todos nós, a multidão de santos e santas de Deus, que, apesar de nossos pecados, também lavamos nossas almas (vestes) no Sangue de Jesus, derramado na Cruz e, por isso, somos purificados. Essa leitura do livro do Apocalipse é muito bela porque mostra todo cuidado que Deus tem com seu povo. E termina dizendo que Ele enxugará toda lágrima de nossos olhos.

Jesus é o Bom Pastor, mas também é um cordeiro que caminha com os seus. Ele não se engrandeceu de sua condição de pastor, mas desceu até o nível das ovelhas para ser igual a nós. Só nisso, Ele já é digno de todo nosso amor e de toda nossa adoração. Mas Jesus fez, faz e ainda fará muito mais por cada um de nós. Porém, para recebermos toda essa graça, temos que estar envolvidos com o rebanho. A ovelha que não está no rebanho não bebe da água fresca nem come da pastagem.

Temos que ser menos lobo e mais ovelhas. Menos agressivos e querer estar sempre por cima e mais dóceis e humildes. À semelhança do nosso pastor. Ele se igualou a nós. Nós temos que nos igualar a Ele.

(Eduardo Marchiori)

Aparições do Ressuscitado

Jesus e PedroTerceiro domingo do Tempo Pascal e Jesus continua se revelando aos discípulos, ainda incrédulos depois de tudo o que aconteceu. O Evangelho de hoje (Jo 21, 1-19) é um tanto “fora de contexto”, visto que São João dá uma conclusão à narrativa de seu evangelho no final do capítulo 20: “Jesus fez diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome”( Jo 20, 30-31).

Muitos teólogos consideram esse trecho “extra” um apêndice, que talvez nem tenha sido escrito por João, mas por seus seguidores. Independentemente disto, o texto é de inspiração divina, pois traz importantes lições para a vida cristã. A primeira delas é que depois da morte de Jesus, os discípulos ainda estavam meio perdidos e com a fé abalada, visto que o Mestre deles havia morrido. Tanto que, voltaram todos para a beira do mar – cenário onde encontraram Jesus pela primeira vez – e Pedro decide pescar. Em outras palavras, retomar sua vida como ela era antes de conhecer Jesus.

Conosco também acontece isso muitas vezes. Temos nossa experiência de Jesus, mas as dificuldades do dia a dia acabam por enfraquecer nossas convicções e abandonamos aquilo em que acreditávamos. Cometemos nossos pecados, vamos à confissão, somos perdoados e prometemos não repetir o erro… mas dali algum tempo, lá estamos nós, voltando a fazer a mesma coisa. Jesus chamou a Pedro para ser “pescador de homens”, ou seja, prometeu a ele algo muito maior do que ele estava acostumado a fazer. Pedro desistiu da proposta e voltou à pequenez de seus antigos projetos.

Jesus também nos chama a fazer coisas maiores… mas nós preferimos ficar com as coisas pequenas às quais já estamos acostumadas. É muito mais fácil. A proposta de Jesus exige mudança, é por vezes insegura, um risco a correr… não, melhor fazer aquilo que já sabemos. “Eu vou pescar!” (v. 3) e os discípulos foram com ele. Porém, apesar da experiência acumulada, não conseguiram pescar nada. O trabalho é em vão. Sempre que nós preferimos permanecer na vidinha que levávamos antes, é um trabalho infrutífero, porque falta Deus ali.

A segunda lição é que Jesus não nos abandona. Pelo contrário, ele respeita aquilo que fazemos e até dá dicas de como melhorar. “Lançai a rede à direita do barco e achareis (os peixes)” (v. 6). A pesca é tão abundante que o barco quase afunda. E nesse momento, os discípulos reconhecem o Senhor Ressuscitado. E conosco, não é assim? Quantas vezes encontramos Jesus nos caminhos da vida e não O reconhecemos, mas depois de uma graça alcançada, percebemos sua presença e lembramos que Ele sempre esteve ali?

Uma terceira lição: Jesus se apresenta na praia e pede comida. Os discípulos não tinham, Jesus pede que lancem a rede pro outro lado e fazem a pesca milagrosa. Quando chegam à terra, com os peixes, Jesus já tinha preparado “brasas, peixe em cima e pão” (v. 9). Ele não precisa do nosso alimento, mas nos dá um alimento que não temos: a Eucaristia. É na Eucaristia que encontramos Jesus Ressuscitado e é esse alimento que nutre nossa alma para não voltarmos mais à vida simples de antes, mas buscarmos sempre as coisas maiores às quais Ele nos chamou.

Quarta lição: ao reconhecer Jesus, Pedro vestiu sua túnica, pois estava nu. Longe de Jesus, nós também estamos nus. Nus de nossa dignidade, nus da graça de Deus, nus da veste branca da transfiguração e da nossa cidadania no Céu (lembram-se deste texto, na Quaresma? Leia aqui). Adão, quando pecou, percebeu que estava nu. Antes do pecado, ele estava revestido da graça divina, mas depois do pecado, ele perdeu tudo isso. Não se trata tanto da nudez física, mas sim, espiritual. Pedro tinha perdido a sua, por um momento. Mas, ao reconhecer Jesus, se vestiu novamente e foi ao encontro de Jesus.

Por fim, a quinta lição: a profissão de fé de Pedro. Por três vezes, o discípulo negou o Mestre na noite de sua condenação. Agora, por três vezes, ele afirma o seu amor. É a restauração do pecado, uma forma de compensar o mal que fizemos. Pedro ficou triste porque Jesus “duvidou” de seu amor, mas Jesus não tinha duvidado de nada. Ele só queria que Pedro reafirmasse por si mesmo suas convicções. Recuperasse aquilo que o definia e que foi decretado por Jesus: Pedro era o líder da Igreja nascente, aquele que deveria “apascentar as ovelhas” e, para isso, era preciso ter firmeza em sua fé.

Isso foi importante algum tempo depois, quando essa fé foi testada e os discípulos se mantiveram corajosos e firmes – conforme ouvimos na Primeira Leitura (At 5,27b-32. 40b-41). Como se vê, embora pareça deslocado do conteúdo do evangelho, o texto é extremamente rico e podemos ouvir, nele, a Palavra de Deus falando aos nossos dias. O Ressuscitado não apareceu só naquela praia aos discípulos, ou no cenáculo para Tomé ou ainda naquele jardim para Maria Madalena. O Ressuscitado continua aparecendo hoje, para nós, a cada dia, nos convidando a deixarmos nossa vida vazia e sem rumo e embarcarmos com ele para irmos a “águas mais profundas”. Cabe a cada um ter os olhos abertos para reconhecê-Lo e a disponibilidade para professarmos nosso amor e nossa dedicação em segui-Lo. Ele pergunta: “(Seu nome), tu me amas?”

(Eduardo Marchiori)

A fé de Tomé

ToméO domingo subsequente à Páscoa da Ressurreição sempre nos traz a cena da aparição de Jesus aos apóstolos e a incredulidade de Tomé. Eu, particularmente, sou um defensor deste apóstolo. Não o considero um homem sem fé, muito pelo contrário. Ele era uma pessoa que tinha tanta fé que quis confirmar com seus próprios olhos a ressurreição de Jesus. Não quis ficar só no “ouvir dizer”.

Em tempos de Internet, nós devíamos seguir o exemplo de Tomé. Vemos pessoas compartilhando informações, notícias e imagens que, na grande maioria das vezes, não são verdadeiras. Fotos são montadas, frases são colocadas na boca de personalidades, notícias humorísticas (tenho fortes reservas quanto à unir humor com jornalismo, pois são coisas completamente diferentes) são divulgadas como se fossem verdadeiras… ninguém mais questiona. E, frequentemente, vemos pessoas sendo difamadas, ofendidas, desonradas.

Fico bastante chateado quando vejo pessoas cristãs compartilhando imagens com a mensagem “vamos espalhar a foto deste criminoso, que matou um cachorro” ou “espalhe a foto deste homem, que espancou a mulher e os filhos” ou ainda “divulguem a foto desta mulher, que estacionou na vaga do deficiente” e outras do gênero. Você nem conhece a pessoa, não sabe nem se ela fez mesmo aquilo que estão dizendo, mas fica espalhando o incêndio. Faz como os judeus, que trouxeram a prostituta para ser apedrejada. A Internet é o novo apedrejamento.

Bom seria se a gente seguisse o exemplo de Tomé. “Se eu não ver com meus próprios olhos, não acreditarei” (Jo 20, 25). Duvidar até ser comprovada a verdade. Não confundir a fé que questiona com a falta de fé. Há aqueles que não acreditam em Deus e nada que você mostre ou prove faz com que mudem de opinião. Não foi essa a fé de Tomé. Tomé quis ver com seus próprios olhos, mas quando o Mestre apareceu diante dele, caiu de joelhos e exclamou: “Meu Senhor e meu Deus!”. Ele reconheceu Jesus como Senhor de sua vida prontamente.

Todos nós, em algum momento da vida, já duvidamos. Será mesmo que Deus existe? Se Ele existe, porque permite que aconteçam tantas tragédias? Maria era mesmo virgem? Ela só teve Jesus ou teve outros filhos? Jesus fez mesmo tantos milagres? Será que aquela hóstia é mesmo Jesus vivo? Eu não vejo sangue, vejo vinho… Os santos intercedem mesmo por nós? Eu peço e não sou atendido… São tantas dúvidas…

Mas duvidar não é pecado. O pecado está em parar na dúvida. Ficar ali e deixar a fé morrer. Aquele que duvida, mas busca uma resposta, está regando a semente da fé, alimentando aquela sede de encontrar-se com Deus. Tomé fez isso. Diz o Evangelho que ele não estava presente na primeira aparição de Jesus. Ele poderia ter duvidado e, no domingo seguinte, ter continuado ausente. “Se Jesus ressuscitou mesmo, ele há de aparecer para mim”. Mas Tomé não pensou assim. No domingo seguinte, ele buscou a Jesus. Se juntou aos discípulos para encontrar-se com Ele. Alimentou a sua fé.

Sim, Jesus deu um “puxão de orelha” em Tomé, dizendo-lhe que não fosse incrédulo. Mas certamente, foi uma “bronca” sorridente, cheia de amor, como só o Ressuscitado poderia ter. Não foi uma bronca para intimidar, mas sim para ensinar. “Tomé, você duvidou. Agora tem sua resposta. Da próxima vez, creia mais!” É assim que temos que ser. Duvidar, buscar a resposta e, com a nossa fé renovada, crer com mais força quando a próxima dúvida vier. Sejamos como Tomé para podermos exclamar, diante de Jesus: “Meu Senhor e meu Deus! Eu creio!”

(Eduardo Marchiori)