A Igreja Católica e o Halloween

halloween-005Também conhecido como “Dia das Bruxas”, o Halloween é uma data tradicional na cultura americana celebrado no dia 31 de outubro. Segundo as lendas, nesse dia, os espíritos malignos saem pelo mundo assombrando as pessoas e, para acalmá-los e evitar suas maldades, são lhes feitas oferendas.

Como toda lenda, a data passou a ser celebrada nas escolas e as crianças americanas saem às ruas vestidas como personagens macabros (fantasmas, vampiros, monstros e, claro, bruxas) batendo de porta em porta e pedindo “gostosuras ou travessuras”.
Ou seja: o dono da casa oferece doces para evitar que as crianças fazem uma “maldade” com ele. Obviamente, tudo não passa de uma grande brincadeira.

De um tempo para cá, essa festa foi incorporada no calendário brasileiro, trazida principalmente pelas escolas de inglês. Infelizmente, dado o teor “espiritual” da data, muita gente (incluindo alguns padres mais fervorosos) passou a condenar a festa e dizer que a Igreja Católica condena a data, afirmando que os católicos não devem participar desse tipo de coisa.

Como todo radicalismo, esse também é cheio de equívocos, a começar por uma orientação enviesada de que a festa é pagã e celebra os maus espíritos. Tudo não passa de uma brincadeira, tão lúdica quanto uma quadrilha de festa junina, por exemplo. Essas mesmas pessoas afirmam que deveria ser exaltado o Saci Pererê, um personagem de nossa cultura, não uma data estrangeira.

Até aí, tudo bem… exceto por um detalhe: o saci não é um personagem brasileiro, mas faz parte da mitologia africana e foi trazido para nosso folclore com a chegada dos escravos ao País.Outro detalhe: o saci é um ser mágico, que viaja num redemoinho e aparece no mato, fazendo travessuras, escondendo objetos, trançando as crinas dos cavalos e fumando cachimbo. Isso é um ser cristão?

Pra complementar, vale dizer que a maior parte das datas festivas do nosso calendário são estrangeiras. Dia das Mães, dos Pais, festas juninas, Natal, Páscoa… É só pesquisar a origem destas datas e ver que nada é genuinamente nacional. Então, vamos parar de hipocrisia com relação a festas “de fora” e ter uma fé esclarecida?

O jornal O São Paulo – órgão oficial da Igreja Católica – trouxe um artigo escrito pelo Pe. Cido Pereira, no qual ele responde perguntas dos leitores e afirma que “nossa igreja não se posiciona contra o halloween”. Veja abaixo a integra do artigo, que saiu na coluna “Você pergunta”:

“A Girlei não me disse seu sobrenome. Ela é aqui de São Paulo e me pergunta: ‘Padre Cido, gostaria de saber a posição da nossa Santa Igreja Católica sobre o halloween. Obrigada.’ Girlei, eu penso que determinadas manifestações culturais que começaram num país e se estenderam por tantos outros, como é essa tal de festa do halloween, não têm nada demais, desde que as entendamos apenas como uma brincadeira.

Essas manifestações fazem parte de um mundo que se globalizou e que, por força dos meios de comunicação, se transformou numa aldeia. Deixaram de ser apenas do País de onde se originaram. Então, tudo bem. Eu sei que até colégios católicos não deixam de celebrar com suas crianças e jovens o tal de halloween.

Porém, eu acho que podemos fazer uma reflexão séria sobre isso. E o que eu vou dizer nada tem a ver com o halloween, que veste nossas crianças de bruxas. O que eu tenho a dizer é que, no mesmo dia em que celebramos o halloween, a festa das bruxas, comemoramos também o Dia do Saci Pererê, mas, coitadinho dele, foi deixado de lado, talvez discriminado e classificado como produto de um povo subdesenvolvido ou sei lá o quê. E, com isso, lá se foram água abaixo nossas manifestações culturais, as histórias e mitos que fazem parte da alma do nosso povo.

Que pena! Mas que pena mesmo. Eu teria ficado mais feliz sabendo que nossas crianças se divertiram com aquele molequinho negro de uma perna só, com um gorro vermelho, um cachimbo de barro na boca e que azucrina a vida no campo, espantando os animais, escondendo coisas. Paciência, Girlei, paciência! Um dia, vamos descobrir que somos um povo maravilhoso, com mitos, com lendas, com historinhas admiráveis, com uma cultura de fazer inveja a qualquer outro povo.

E, respondendo à sua pergunta, eu posso dizer que a Igreja não se posiciona contra o halloweenm, mas eu tenho certeza que ela quer sim que o nosso povo seja valorizado em sua história, em seu flolclore, em sua fé, eu seus costumes, em suas crenças. Deus abençoe você, viu Girlei?” (Padre Cido Pereira, coluna Você Pergunta, jornal O São Paulo Ed. 3102. Pode ser acessada clicando aqui.)

Cuidado com o veneno de católicos extremistas que se consideram exemplo de perfeição. Se você não aprova a data, tudo bem. É seu direito não gostar. Mas não invente histórias que impeçam os outros de se divertirem, seja com o Halloween ou com o Saci, sabendo que tudo é uma brincadeira sadia. “O Reino dos Céus é das crianças e de quem se parece com elas” (Mt 19, 14).

(Eduardo Marchiori)

P.S.: um esclarecimento: embora, na matéria, eu “critique” a comemoração do Saci e Padre Cido o defenda no seu artigo, não se trata de uma divergência de opiniões. Apenas quis mostrar que a reflexão é bem mais aberta do que muitos radicais (que não é o caso de Pe. Cido, muito sábio em suas colocações) querem propor, de simplesmente coibir e botar culpa onde ela não existe.