Oração da Manhã

cafeBom dia, Pai

Vamos tomar juntos o café da manhã?

Temos pendentes tantos assuntos!

(O pão está fresquinho,

o café bem quente).

Ainda que só um minutinho,

nós precisamos conversar:

O mundo desandou de tal jeito,

que nada mais parece ter efeito.

Nem Ciência, nem teoria,

nem fórmula, nem maestria

conseguem colaborar.

Cada qual briga pelo seu bocado

sem nenhuma decência, sem qualquer restrição,

Perdeu-se nas cinzas o espírito cristão,

Por isso, a minha ideia

(por favor, passe a geleia)

de recorrer a uma ajuda;

sem Você, a situação não muda.

A ambição vem engolindo a Terra;

a sociedade, cada vez mais dissoluta.

E fique atento,

pois andam procurando uma fé substituta.

Os governantes estão cegos;

que tal devolver-lhes a visão?

Carregam pregos nas mãos,

crucificam o povo.

Não quero que Você morra de novo!

Meu Jesus, multiplique o pão.

Perdoe esse bate-papo,

(à sua frente, tem um guardanapo)

É que estou tão aflito!

Que bom receber Sua visita logo de manhã!

Devo Lhe contar um segredo:

quero sair de casa, mas tenho medo.

preciso segurar Sua mão.

Ainda falta agradecer tanta graça!

O girassol que nasce na calçada,

o rosa-amarelo da alvorada,

o pedaço de céu que pinga na vidraça,

na gota de orvalho que cai.

Daqui pra frente, eu sigo meu caminho

e Lhe entrego todo meu afeto.

Você é mesmo meu amigo predileto!

Bom dia, Pai.

(Flora Figueiredo
In.: Chão de Vento: poesia, SP,
Geração Editorial, 2011)

mensagem-de-fe-fotoSob a abóbada, uma tonalidade âmbar,

que entra quieta pelos vitrais.

Um leve aroma de incenso,

que os dias de hoje já nem usam mais.

De joelhos, os fiéis contritos;

em pé, os devotos aflitos;

sentados, os mais conformados.

Um grupo discreto murmura confiante

uma novena:

a esperança é grande,

a sorte é pequena,

só Deus que dá jeito.

Ave Maria, cabeça baixa, mão no peito,

talvez um dia.

A viúva recente, a moça carente,

o desempregado;

a mãe alarmada, a sogra injuriada,

o velho doente;

uma adolescente que quer namorado.

No nicho da esquerda, a imagem parece

sensibilizada.

Também, tanta prece…

Olhos comovidos, gesto suplicante,

aos pés uma rosa e a serpente pisada.

Lá na frente, um Cristo sofrido pede penitência,

que o pecado é insistente,

o corpo é atrevido

e a gente escorrega por inconsequência.

Depois do conforto,

o frasco de água benta na porta da saída.

Se houver recaída, só fé que sustenta.

(Flora Figueiredo
In.: Chão de Vento: poesia, SP
Geração Editorial, 2011)