Oração da Manhã

cafeBom dia, Pai

Vamos tomar juntos o café da manhã?

Temos pendentes tantos assuntos!

(O pão está fresquinho,

o café bem quente).

Ainda que só um minutinho,

nós precisamos conversar:

O mundo desandou de tal jeito,

que nada mais parece ter efeito.

Nem Ciência, nem teoria,

nem fórmula, nem maestria

conseguem colaborar.

Cada qual briga pelo seu bocado

sem nenhuma decência, sem qualquer restrição,

Perdeu-se nas cinzas o espírito cristão,

Por isso, a minha ideia

(por favor, passe a geleia)

de recorrer a uma ajuda;

sem Você, a situação não muda.

A ambição vem engolindo a Terra;

a sociedade, cada vez mais dissoluta.

E fique atento,

pois andam procurando uma fé substituta.

Os governantes estão cegos;

que tal devolver-lhes a visão?

Carregam pregos nas mãos,

crucificam o povo.

Não quero que Você morra de novo!

Meu Jesus, multiplique o pão.

Perdoe esse bate-papo,

(à sua frente, tem um guardanapo)

É que estou tão aflito!

Que bom receber Sua visita logo de manhã!

Devo Lhe contar um segredo:

quero sair de casa, mas tenho medo.

preciso segurar Sua mão.

Ainda falta agradecer tanta graça!

O girassol que nasce na calçada,

o rosa-amarelo da alvorada,

o pedaço de céu que pinga na vidraça,

na gota de orvalho que cai.

Daqui pra frente, eu sigo meu caminho

e Lhe entrego todo meu afeto.

Você é mesmo meu amigo predileto!

Bom dia, Pai.

(Flora Figueiredo
In.: Chão de Vento: poesia, SP,
Geração Editorial, 2011)

mensagem-de-fe-fotoSob a abóbada, uma tonalidade âmbar,

que entra quieta pelos vitrais.

Um leve aroma de incenso,

que os dias de hoje já nem usam mais.

De joelhos, os fiéis contritos;

em pé, os devotos aflitos;

sentados, os mais conformados.

Um grupo discreto murmura confiante

uma novena:

a esperança é grande,

a sorte é pequena,

só Deus que dá jeito.

Ave Maria, cabeça baixa, mão no peito,

talvez um dia.

A viúva recente, a moça carente,

o desempregado;

a mãe alarmada, a sogra injuriada,

o velho doente;

uma adolescente que quer namorado.

No nicho da esquerda, a imagem parece

sensibilizada.

Também, tanta prece…

Olhos comovidos, gesto suplicante,

aos pés uma rosa e a serpente pisada.

Lá na frente, um Cristo sofrido pede penitência,

que o pecado é insistente,

o corpo é atrevido

e a gente escorrega por inconsequência.

Depois do conforto,

o frasco de água benta na porta da saída.

Se houver recaída, só fé que sustenta.

(Flora Figueiredo
In.: Chão de Vento: poesia, SP
Geração Editorial, 2011)

Quem já é santo?

santoFoi essa a pergunta que o padre fez em sua homilia do Dia de Todos os Santos, celebrada neste primeiro domingo de novembro. Inicialmente, ele começou perguntando: “Quem gostaria de ser santo?”. Toda a igreja levantou a mão. Em seguida, perguntou “Quem já é santo?” Apenas eu mantive a mão erguida. As pessoas ao redor começaram a rir e fazer piada. Mas não foi nenhum ato de soberba de minha parte. Sei muito bem da minha condição imperfeita e pecadora e da minha necessidade de purificação no sangue do Cordeiro, como narra o Apocalipse (Ap 7, 14).

Contudo, também tenho consciência de que, pelo Batismo, mergulhei na vida de Cristo e, por isso, minha vida se tornou santificada por graça Dele. O grande problema está em nosso entendimento do significado da palavra “santo”. Fomos acostumados a imaginar que santo é aquele que não tem pecados. Uma pessoa extraordinária, pura, casta, que viveu sua vida totalmente dedicada a Deus, não tem maus pensamentos, ama a todos… enfim, uma pessoa perfeita. E, sabemos, só um é perfeito: Deus.

Enquanto caminhamos nesta Terra, estamos em busca da santidade e, bem sabemos, nunca vamos alcançá-la em sua plenitude, porque os pecados nos atrapalham. Mas nem por isso devemos deixar de buscá-la. Nosso cardeal arcebispo Dom Odilo Pedro Scherer escreveu, no jornal O São Paulo esta semana (link aqui) que Deus é como o fogo. Quem se aproxima dele, se aquece com aquele calor. Da mesma forma, quem se aproxima de Deus, é santificado, porque Deus é três vezes santo.

Assim, não devemos negar nossa condição de santos em função de nossa natureza pecadora. Todos nós temos esses dois lados. A própria Igreja se assume como “santa e pecadora” e nós, como membros que somos, pelo batismo, também o somos. Santos e pecadores. Santos porque participamos, já na Terra, das virtudes do Céu. Comungamos o Corpo de Cristo e O recebemos dentro de nós. Acreditamos que Ele purificou Maria por ter estado em Seu ventre… mas não acreditamos que Ele possa nos purificar? Pecadores porque somos criaturas imperfeitas. Caminhamos rumo ao Pai, mas ainda não estamos no auge do que seremos (cf. 1Jo 3, 2). Somos mesquinhos, orgulhosos, temos o coração duro. Mas também temos amor, bondade, doçura. É nossa dicotomia.

Em outra ocasião, um outro padre de nossa comunidade, também discursando sobre o Dia de Todos os Santos, mencionou que uma senhora disse a ele: “Ih, padre, eu não sou santa, não!” ao que ele respondeu: “Pois devia ser! É para isso que estamos aqui!” Portanto, não tenha vergonha de dizer que você é santo (a), mesmo que tenha lá suas imperfeições. Assuma sua santidade como um objetivo de vida e busque-a sempre. São João, em sua primeira carta, na segunda leitura desta liturgia diz: “Todo o que espera nele, purifica-se a si mesmo, como também ele é puro.” (1Jo 3, 3)

Ao terminar sua homilia, o padre comentou: “Quando eu perguntei quem era santo, ninguém levantou a mão (ele não tinha visto minha mão erguida). Que pena que nos esquecemos de que somos participantes da divindade de Cristo pelo santo batismo!” Com essas palavras, ele confirmou aquele pensamento que tive, quando reconheci que eu era santo. Mostrou que estou no caminho certo, como todos dentro daquela missa também estavam. Só que, também como todos, ainda tenho um longo caminho a percorrer. E, com a ajuda de todos, espero um dia chegar à plenitude das bem-aventuranças para contemplar o rosto daquele que é Santo por excelência.

(Eduardo Marchiori)

 

O Senhor se elevou

Ascension“Por entre aclamações, Deus se elevou; o Senhor subiu ao toque da trombeta” (Sl 46) O Salmo fala da glória de Deus, mas Jesus não teve grandes aclamações quando voltou aos Céus. A festa da Ascensão é celebrada com júbilo pela Igreja no mundo inteiro, mas uma leitura no Evangelho até narra uma subida bem discreta de Jesus. Aliás, como sempre foi sua vida: sem trombetas nem grandes espetáculos. Jesus não veio para dar show: Ele veio para nos levar ao Céu.

O motivo de festejarmos a Ascensão é exatamente esse: é por sabermos que, em Sua grandeza, Deus quis se fazer pequeno e se encarnou para tornar-se um de nós. Passou, neste mundo, tudo aquilo que nós passamos, menos o pecado. Sofreu, chorou, sentiu fome, teve amigos, foi a casamentos, rezou no Templo… teve pai e Mãe… fez peraltice de criança (se perdeu dos pais), teve momentos de muita alegria e também morreu.

Mas – aí é que está nosso grande motivo de alegria – também ressuscitou e depois se elevou aos Céus. Com aquele corpo humano que era nosso. Ressuscitou a nossa natureza e levou-a consigo para junto de Deus. É por isso que cremos que nós também vamos ressuscitar e sermos levados ao Céu – porque aquilo aconteceu com Jesus e ele era igual a nós em sua natureza humana. Ele quis assim para elevar o ser humano a uma categoria maior do que apenas uma “criatura” de Deus. Agora somos também filhos, assim como Ele é Filho.

A festa de hoje tem um sentido todo especial por tudo isso e também porque é traz em si a promessa de que, embora Jesus não esteja mais em forma física no meio de nós, Ele não nos abandonou à nossa própria sorte, mas enviou o Seu próprio Espirito para nos ajudar a compreender e a abrir nosso entendimento às coisas divinas. Semana que vem estaremos comemorando o dia de Pentecostes, mais um domingo festivo que encerra o tempo pascal e nos coloca de novo na realidade da Igreja. Repletos do Espírito Santo, agora temos a missão de levar esse Jesus aos outros.

10406573_1435298330066113_7704021686461096558_nNeste mesmo domingo, também celebramos o Dia das Mães. Aquelas que “emprestam” seu corpo para que Deus faça nelas o milagre da vida. E, depois disso, doam sua vida inteira para que aquele pequeno ser possa crescer com saúde e felicidade. Se hoje temos mulheres querendo ser “donas” de seus corpos é porque não compreenderam a graça da maternidade. Enxergam o filho como um fardo a se carregar, não como um presente divino. Egoísmo não rima com Mãe, porque ser mãe é sair de si e dedicar-se total e irrestritamente à criaturinha frágil que sai de dentro dela.

Quem quer ser dona de si é melhor mesmo que não seja mãe. Seu filho não mereceria tal sentimento. E – bom deixar claro – isso vale também para os pais, que são muito mais do que meros “atores sexuais” e usuários do corpo feminino. Ser pai também é doação – mas a festa de hoje não é deles, então, vamos deixar esse comentário para daqui alguns meses. Hoje, o dia é das mães. Aquelas que, com sacrifício, doação e, sobretudo, amor, se empenham ao máximo para criar suas crianças. Muitas vezes, criam sozinhas, porque são abandonadas pelos maridos que não compreenderam sua missão de pai. São verdadeiras heroínas, mulheres fortes, batalhadoras e dignas de toda homenagem que possa haver no mundo.

capinha001Por fim, hoje também é um dia especial para nossa revista, porque comemoramos 22 anos de vida. Foi no dia 8 de maio de 1994 que distribuímos a primeira edição do “Jornal da Crisma”, que virou “Construtores do Reino” a partir da edição 3 e se tornou revista oficialmente em 2008, embora já tivesse tais características desde 1999. É uma história muito bonita e cheia de percalços, mas sempre com a graça de Deus nos acompanhando. Um passo de cada vez, fomos aumentando páginas, ganhando maturidade, crescendo como uma criança.

Hoje é um dia de muitas graças. Dia de agradecer pelo carinho que tiveram como nossa revista ao longo desses 22 anos. Obrigado pela aceitação, pelas críticas, pelo incentivo… Também é dia de agradecer pela dedicação de nossas mães. Que não seja apenas hoje, mas todos os dias. Porém, hoje é um dia para lembrar delas de modo especial e dar aquele abraço de gratidão. E, sobretudo, também é dia de agradecer a Deus pelo infinito amor que tem por nós. Um Deus tão apaixonado pela humanidade que não quis se desfazer dela e levou-a junto com Ele para o Céu.

(Eduardo Marchiori)

Promessa de salvação

Jesus e os doze discípulosA Boa Notícia de hoje é que todos estamos salvos em Cristo Jesus e, só por isso, nossa vida deve ser de extrema alegria. O Evangelho (Jo 14, 23-29) continua a narrativa da semana passada, onde Jesus se despede dos discípulos, mas não sem deixar-lhes uma palavra de esperança. “Vou para o Pai, mas voltarei a vós” (v. 28). Jesus parte, em sua forma física, mas permanece conosco em formas diferentes: na Palavra que lemos e ouvimos, no alimento do altar, sob as espécies do Pão e Vinho e também nas pessoas ao nosso redor, pois como Ele mesmo afirmou, “cada vez que fizerdes isso a um dos meus irmãos pequeninos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25, 40).

Jesus não nos abandona à nossa própria sorte. Aliás, Deus nunca nos abandonou à nossa própria sorte, mesmo quando pecamos. Adão, lá nos primórdios, desobedeceu a Deus e, naquele momento, Deus prometeu o Salvador. Não abandonou o homem em sua fraqueza, mas se adiantou em perdoar e prometer um retorno ao Paraíso. E a liturgia de hoje mostra bem esse cumprimento da Palavra de Jesus quando, na Primeira Leitura (At 15,1-2.22-29), apresenta os apóstolos com um dilema moral.

Por conta das leis judaicas, havia uma discussão sobre as condições necessárias para a Salvação. Nos dias de hoje, quando entramos num emprego, por exemplo, temos que apresentar o currículo com nossas habilidades. Depois, apresentamos documentos, RG, CPF, comprovante de residência, em alguns casos, até atestado de antecedentes, para provar que somos cidadãos de bem. No tempo de Jesus, a condição para “entrar” na religião era a circuncisão. Quem não fosse circuncidado, não pertencia ao grupo.

Por que a circuncisão era tão importante? Na mentalidade dos judeus, ao cortar o prepúcio – a pele que recobre o órgão genital masculino – o que restava era um “anel”. Ou seja: o homem tirava de si mesmo, de sua própria pele, um anel, simbolizando a aliança com Deus. Hoje, as cirurgias modernas tornam isso bem mais simples, mas naquela época, era algo bem sacrificante, principalmente para homens adultos. E, quando a Palavra de Jesus atingiu outras regiões, muitos pagãos começaram a querer seguir aquela Palavra, mas era exigido que fossem circuncidados.

Criou-se, então, um dilema: essas pessoas que não aceitassem a circuncisão poderiam ser salvas? Os apóstolos se reuniram, discutiram e decidiram que sim. A condição para ser salvo era seguir a Palavra de Jesus. Ter amor pelo próximo. Um pedaço de pele cortada não garantia a aliança com Deus, mas sim o que elas traziam no coração. Diz a Palavra: “Porque decidimos, o Espírito Santo e nós, não vos impor nenhum fardo, além destas coisas indispensáveis: abster-se de carnes sacrificadas aos ídolos, do sangue, das carnes de animais sufocados e das uniões ilegítimas. Vós fareis bem se evitardes essas coisas.” (v. 28-29).

A salvação foi aberta a quem quiser. Claro que algumas normas são, sim, requeridas. Hoje em dia, uma criança que entra na catequese precisa ter certa idade, tem que apresentar uma documentação, frequentar o curso de formação para só depois, participar da Eucaristia. Se não seguir essas normas, não pode participar. São questões básicas: não é que a Igreja quer proibir as pessoas de algo, é apenas para dar uma formação para que tenham um entendimento daquilo e possam ter mais consciência e dignidade ao fazê-lo, para que não se torne um mero ritual, mas haja coração e amor. O que não se pode é tornar tais coisas um fardo pesado e impossível de carregar.

A Segunda Leitura (Ap 21,10-14.22-23) complementa esse pensamento, mostrando que a chave do Reino Eterno está ao nosso alcance. Quando João narra, em seu Apocalipse que os as portas da Jerusalém celeste possui gravados os nomes das doze tribos de Israel e os alicerces das muralhas tinham o nome dos doze apóstolos, é um sinal de que ali estão todos os povos do Antigo Testamento (Doze Tribos) e do Novo Testamento (Doze Apóstolos), do qual nós também fazemos parte. Nossos nomes estão escritos no Céu, no lugar onde não existe o sol, “pois a glória de Deus é a sua luz e a sua lâmpada é o Cordeiro” (Ap 21, 23).

E daí vem Jesus dizendo que vai partir, mas mandará o Espírito Santo para nos lembrar de tudo aquilo que Ele nos ensinou. E completa: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e o meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele a nossa morada” (Jo, v.14, 23). É tudo o que precisamos. A liturgia de hoje aquece o coração e nos dá a certeza de que temos um Deus que olha por nós e nos acompanha sempre na caminhada. Ele quer salvar e viver ao nosso lado para sempre. As portas já estão abertas: para entrar, só precisamos amar e guardar a Palavra Dele.

(Eduardo Marchiori)

Lei do amor

wyllys-bolsonaroNo último domingo, durante a votação do Impeachment da presidente, fomos “brindados” (dentre outras coisas, que só nosso coro parlamentar pode nos conceder) com uma cena digna dos  mais refinados seres humanos: o deputado Jean Wyllys cospe na cara do também deputado Jair Bolsonaro. Ontem, o ator José de Abreu, um dos maiores nomes da teledramaturgia, homem de bons princípios, perseguido pela ditadura militar por defender a liberdade de expressão, perde as estribeiras e, durante uma discussão num restaurante, cospe na cara de um casal.

Estes são apenas – ênfase no “apenas” – dois exemplos do quanto nossos dias precisam da cultura do amor. A liturgia de hoje entra em clima de despedida, já prenunciando a ascensão de Jesus que será celebrada daqui a dois domingos (muito embora o texto remeta à Última Ceia), com Jesus nos deixando, não um pedido, mas um mandamento: “Amai-vos uns aos outros assim como eu vos amei!” (Jo 13, 34). E, se tomarmos ao pé da letra essas palavras do Mestre e compararmos com nossa vida, veremos o quão longe estamos de cumprir esse preceito!

Nunca, jamais conseguiremos amar da mesma forma que Jesus nos ama. No entanto, Ele pediu que o fizéssemos e cabe a nós, no mínimo, tentarmos nos aproximar desse amor tão grande. Mas parece que, a cada dia que passa, fazemos o contrário. Ao invés de amar, odiamos. Ao invés de respeitar, impomos nossa opinião. Ao invés de compreender, julgamos. Ao invés de perdoar, cortamos a pessoa de nossas vidas – e hoje, com as redes sociais, isso é tão fácil… basta um botão de “Excluir” ou “Bloquear” e pronto! Eliminamos o estorvo!

Não é isso que Jesus deseja de nós. Certamente, não é! Nossa vida deveria ser um espelho do que foi a vida de Jesus. Por mais impossível que nos pareça ser iguais a Ele na perfeição de Sua divindade, não nos é impossível imitá-lo, assim como uma criança nunca poderá ser igual ao seu pai na sua fragilidade e infância, mas tenta imitá-lo em suas virtudes. Somos filhos de Deus e, como tal, devemos imitar nosso Pai.

Hoje se prega a cultura do egocentrismo. Os aparelhos de celular e câmeras fotográficas são adaptadas para que possamos tiramos fotos de nós mesmos e não precisemos mais pedir ajuda a outro. Antigamente (e não tão antigamente assim… coisa de uns dez anos atrás, no máximo!), quando estávamos perdidos, tínhamos que pedir informação a alguém. Hoje, temos GPS no carro e no celular. Humilhação, jamais! Eu me basto! Eu me viro! O outro que viva sua vida!

Obviamente, a tecnologia chegou para nos ajudar e facilitar nossa vida, mas sempre me questiono até que ponto ela realmente está ajudando ou se está nos tornando homens-caracol, fechados em nosso casulo, olhando pro nosso próprio umbigo. Hoje, temos a possibilidade de conversar em tempo real com pessoas do outro lado do mundo… mas não temos a capacidade de conversar, na mesa, com nossos familiares que estão ao nosso lado… E o amor, onde entra?

Compartilhamos mensagens otimistas e cheias de bons valores pelo Facebook, mas que palavras nós temos para dar àquela pessoa que está sofrendo? Ou esperamos que ela leia nossa timeline? Afinal, tudo de bonito que queremos dizer, está lá… Ainda esta semana, brincava com alguns amigos dizendo que encontrei, nas estatísticas deste blog, uma busca nos seguintes termos: “mensagem de agradecimento para catequista de primeira eucaristia”. Comentei que, se eu recebesse uma mensagem copiada de mim mesmo (se a pessoa veio parar no meu blog, é bem possível que copie uma mensagem que eu escrevi) ia impedir a criança de fazer a Primeira Comunhão.

Claro que foi uma brincadeira, mas veja em que pé chegamos: somos incapazes de expressar até mesmo as coisas boas – a gratidão, o carinho, o respeito pelo trabalho do catequista (ou professor, ou pai, ou mão, ou quem quer que seja) – que estão em nossos corações e preferimos pegar uma mensagem pronta. É um “amor enlatado”: é só abrir e consumir. O nosso coração é capaz de coisas que nos surpreendem. Não é preciso palavras bonitas. Aliás, catequista nenhum (ou professor, ou pai, ou mãe…) precisa de mensagens de agradecimento. O que eles querem é apenas o amor.

A mensagem, o presente, são consequências desse amor, que não cabe no peito e quer virar algo material. Mas, se não tiver o material, um abraço serve. Fala mais do que o presente. As cuspidas que viraram moda são expressões do ódio e do desprezo. Não cabem no coração de que diz que ama e segue Jesus. Temos que dar um passo atrás na vida para rever nossos valores. Dar um passo atrás não é retrocesso: é corrigir o caminho para seguir em frente.

“Nisso todos saberão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros.” Não aquele amor meloso e cheio de coraçõezinhos. Um amor que se entrega por quem quer que seja: os que gostam de nós e também os que não gostam. Amor não é viver aos beijos e abraços. Amor é dar bronca quando necessário para corrigir. Nossos deputados erraram não quando discutiram suas ideias diferentes, mas quando criaram uma muralha entre si, muralha essa que não foi capaz de conter uma cuspida. O ator não errou quando tentou defender a si de provocações infundadas. Ele errou quando sua raiva tomar conta e extravasar.

A medida do amor é amar sem medida, já dizia Santo Agostinho. É por esse amor que serão criados novo céu e nova terra, como narra a Segunda Leitura de hoje (Ap 21, 1-5a). O Senhor irá voltar e fazer novas todas as coisas. E, com tudo renovado, não haverá espaço para sentimentos mesquinhos: só quem ama terá lugar nesse reino. façamos nós também uma reforma nos nossos sentimentos. É difícil, sim, mas não é impossível. E, se for impossível para você, saiba que pode contar com aquele cuja especialidade é ultrapassar todos os limites. Peça a Ele a graça de amar como Jesus nos ama.

(Eduardo Marchiori)

Pastor e cordeiro

bom pastorO 4º. Domingo da Páscoa é conhecido, liturgicamente, como o “domingo do Bom Pastor”. É porque o Evangelho deste dia (Jo 10, 27-30) destaca essa personalidade de Jesus, que se assume como o bom pastor, aquele que dá a vida pelas suas ovelhas. Mas é interessante notar que Jesus não é apenas pastor, ele também é ovelha. Ele é o “cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”, como disse João Batista (Jo 1, 29) e como recitamos por três vezes na Santa Missa.

Jesus é o novo cordeiro que foi imolado em reparação dos nossos pecados. Era um costume dos antigos oferecer um sacrifício a Deus, geralmente cordeiros e bodes, simbolizando os pecados de todas as pessoas, para “aplacar a ira” do Criador. No tempo de Moisés, um cordeiro foi imolado e seu sangue passado nas portas dos hebreus para salvá-los da fúria do anjo vingador que passou pelo Egito. Jesus retoma esse costume e oferece-se a si mesmo como cordeiro manso.

O sangue de Jesus-Cordeiro, agora não mais nas portas, mas na nossa fronte, pelo nosso batismo, é quem nos protege e nos salva. A figura do cordeiro e dos pastores era muito forte para os judeus porque eles viviam aquela realidade – era um povo rural, que tinha seus animais e muitas pessoas do povo exerciam a função de pastor – aquele que leva as ovelhas para o pasto. Por isso, Jesus toma para si essa imagem. Além de ser o Cordeiro de Deus, ele também é o Bom Pastor, cujas ovelhas obedecem e seguem.

Hoje, temos em nossas casas cachorros e gatos e também sabemos que eles conhecem até os passos de seus donos. Basta se aproximar e já se alegram e abanam o rabo. Se ouvem um estranho, latem em alerta. As ovelhas também são assim: não seguiam outro som que não fosse do seu pastor. Ele tinha seu jeito particular de assobiar ou de chamar que as ovelhas identificavam prontamente. E sabiam que seu pastor as levaria para um lugar bom, de descanso, águas frescas e pastagem farta.

Imaginar Jesus como pastor é ter essa certeza, de estarmos sendo conduzidos para boas pastagens, ou seja, para um caminho de felicidade e sem sofrimento. E Jesus promete: “Ninguém vai arrancá-las da minha mão” (Jo 10, 29). Ele é o pastor que se dedica, quer o melhor e, acima de tudo, protege. Não precisamos temer, pois temos a certeza de que contamos com essa proteção carinhosa e permanente.

Os apóstolos tiveram essa certeza, como nos mostra a Primeira Leitura (At 13,14.43-52), quando Paulo e Barnabé precisam enfrentar os judeus. Com coragem, eles assumem que os judeus foram o povo escolhido, mas como não aceitaram a Palavra de Deus, ela agora seria levada aos pagãos – que eles tinham como excluídos. Sem temer a reação deles, mas com a coragem de saber que contavam com a proteção de Jesus.

A Segunda Leitura (Ap 7,9.14b-17) mostra o tamanho do “rebanho”: “uma multidão de todas as nações, tribos, povos e línguas, e que ninguém podia contar” (v. 5) e que “alvejaram suas vestes no sangue do cordeiro” (v. 14). Estes somos todos nós, a multidão de santos e santas de Deus, que, apesar de nossos pecados, também lavamos nossas almas (vestes) no Sangue de Jesus, derramado na Cruz e, por isso, somos purificados. Essa leitura do livro do Apocalipse é muito bela porque mostra todo cuidado que Deus tem com seu povo. E termina dizendo que Ele enxugará toda lágrima de nossos olhos.

Jesus é o Bom Pastor, mas também é um cordeiro que caminha com os seus. Ele não se engrandeceu de sua condição de pastor, mas desceu até o nível das ovelhas para ser igual a nós. Só nisso, Ele já é digno de todo nosso amor e de toda nossa adoração. Mas Jesus fez, faz e ainda fará muito mais por cada um de nós. Porém, para recebermos toda essa graça, temos que estar envolvidos com o rebanho. A ovelha que não está no rebanho não bebe da água fresca nem come da pastagem.

Temos que ser menos lobo e mais ovelhas. Menos agressivos e querer estar sempre por cima e mais dóceis e humildes. À semelhança do nosso pastor. Ele se igualou a nós. Nós temos que nos igualar a Ele.

(Eduardo Marchiori)